1 Capítulo

O princípio é como um sonho. Mas como todo sonho é passageiro, existe uma infinidade de começos. E um início não pode ser obliterado por causa de mentes tacanhas, por mentes atrasadas, por mentes perturbadas, por mentes insensíveis, por mentes desinformadas, por mentes imbecis, por mentes calhordas e obtusas. E no princípio era o caos. E depois de toda a mixórdia formou-se o Belo Amorfo. Depois nasceram os homens em busca dos sonhos e ilusões futuras.

Mas o sonho é como uma busca constante dos vendavais em verdes pastagens, onde o sol é apenas o reflexo dos caminhos escondidos dos sonhos e ilusões futuras.

E quando o homem se esquece da sua natureza, tende para o absurdo. Ao longe, em seus desvarios, apela sempre para a inconstância permanente de nunca ser coeso com sua imagem e semelhança, mesmo quando se olha no espelho. E difícil é solicitar ajuda do próximo, quando o mesmo está impossibilitado de desvendar seus próprios sonhos e constantemente com medo de superar sua própria resistência.

E o medo é o elo permanente entre a vida e a morte. Em si, a vida já leva muitas vantagens sobre a morte; independente do ângulo em que se perceba a observação. A vida é como um rio que corre… Mas em mar aberto, as águas se fundem, se entrelaçam, se mesclam, se confundem desabrochando em desejos inconfessáveis e no fim, depois de infinitas reviravoltas, tornam ao ponto de partida… Indubitavelmente, há explicações, há implicações metafísicas… Mas estou pouco me importando de que lado é a margem do rio. Quando se lança uma pedra à distância, dependendo do vento, ela pode voltar à nossa cabeça. A minha preocupação é tão grande e mortal, que chego a verter lágrimas a cântaros.

E por falar em morte, quando começamos a pensar na dita figura, observamos o desgaste de idéias a que ela irremediavelmente nos arremete e percebemos que não tem cura, não tem solução. É o nosso eterno conflito existencial…

E uma coisa leva à outra, afinal, é tudo uma questão de oportunidades. É como o piscar de olhos… O cego deveria ser muito feliz… E, no entanto, vive querendo ver… Se ver, enxergar, olhar fosse a coisa mais importante do mundo, o homem não procuraria se ocultar na sombra. A vida ou a morte é assim mesmo. Quanto mais nos ocultamos, mais estamos próximos da realidade e não adianta discordar dos fatos; se bem que discordar faz parte do cotidiano. O homem vive para discordar. Quando não discorda, está morto, enterrado e sepultado.

Mas pernicioso e inconsequente é o vagido derradeiro da gota de orvalho, quando o sol vem surgindo a leste de qualquer lugar. Cheio de tensão, nervos à flor da pele, estrídulo e distonal. Assim como o homem quando retorna ao lar após um dia de trabalho estafante. Reconfortante e salutar é um banho fresco, depois sentar nos pensamentos e sonhar… Sonhar com sonhos e quimeras…

Mas o sonho nunca acabou… Infelizmente, ou felizmente, a realidade é uma fábrica de monstruosas e assustadoras fantasias. E aterradoras são as noites maldormidas, quando saímos em busca de nós mesmos e só encontramos sombras amorfas noite adentro, perambulando feito calças balançando ao sabor do vento, penduradas nos varais da inconsciência.

Mas o sonho preocupa, machuca, dói como um peso na consciência. A inconstância da dor alivia a embriaguez dos caprichos de mulher mal-amada quando parte pelo mundo afora em busca de prazeres e orgasmos belicosos. E quando sentem o sangue virginal macular o lençol, choram feito donzelas remidas no colo da concupiscência. E depois descobrem, envergonhadas, que tudo não passou de um ciclo menstrual impróprio.

Não se pode deitar perfume nos sonhos, pois volátil é o prazer sentido em cada devaneio. Quando o vento sussurra nos ouvidos capciosos inconfessáveis promessas, o vazio se preenche de vontade contumaz. E a tristeza habita os olhos da gazela perdida… E o encontro tão esperado transforma-se em onírico pesadelo e só resta o silêncio dos lábios gélidos das estátuas abandonadas, desamparadas, vadias e sôfregas nos jardins rotos do tempo.

E a necessidade constrói castelos de areia durante as noites maldormidas e no êxtase de sucumbir aos desvelos da solidão, faz com que se percam os ideais pictóricos. E quando vem o dia, majestoso e fugaz, a alegria se manifesta outra vez… E surge novamente o desejo, a ganância, a psicose, o prazer de possuir outra vez as experiências passadas. Contudo, nunca foi preciso navegar contra a maré, pois a razão não nos possibilita criar crocodilos em perdidas esperanças… E nunca é tarde para matar as saudades, quando as lembranças não podem ser esquecidas. Mas velejar contra a maresia faz do homem uma caixa de cimento… E o peso da idade, enobrece as horas passadas no labor renhido, dos braços cansados, de tanto pensar na busca da saudade.

E os olhos gratinados de lágrimas despertam para um desjejum insípido, frugal e cruel.

Louco é patinar em areias movediças, quando não se tem a certeza das coisas e o esperto usa a criatividade para aplacar seu desejo… Usa a criatividade da paixão para sublimar as delícias de um tresloucado desejo de possuir os sonhos e as loucuras intermediárias entre a solidão e o aprisionamento da lucidez, depois sai porta afora imprimindo um sorriso de satisfação néscia e transforma o corpo num lupanar de sensações inconfessáveis.

E a descoberta do princípio indissoluto é que faz com que a chuva não macule o sonho dos noctívagos. E durante a noite, quando apenas o homem sonha e desperta, é que surge a necessidade intrínseca de coabitar o mundo selvagem em que vive para poder existir em paz, e em harmonia com os votivos; inebriados com as saídas mentirosas em deflexão das libélulas, esvoaçando pelas estrelas noturnas perdidas em brilhos estéreis.

Doce seria pernoitar entre seus braços e esquecer que lá fora, desvairado, na saudade do seu olhar, no esquecimento do seu suspiro,  na sua solidão da sua voz, eu me perco consoante à sua sombra que passa e não quero sucumbir jamais aos desenganos tardios do “poltergeister” que rebusca a sua imagem em rostos que passam rápidos, como um relâmpago da eternidade, no brilho dos seus passos.

Queria inundar o seu ventre de estrelas cadentes e transformar o seu ser numa aurora boreal; mas o meu desejo é fremente e osculo a luz que afaga a sua imagem como um mágico que realiza o milagre do impossível em busca da perfeição.

*****

Vortlan estava confuso. Milhões de imagens desconexas invadiam a sua forma de pensar. Emoções estranhas lhe causavam certo desconforto e não havia nenhuma lógica. Era como se a sua alma se arremetesse no vazio infinito sem alcançar nenhum objetivo, nenhum porto seguro… Uma avalanche se aproximava… Aquela alma alienígena o perturbava.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s