2 Capítulo

E o tempo enclausura o homem no seu próprio espaço. E quando se fala em tempo/espaço, divagamos na incompreensão das intempéries cósmicas do insofismável vir-a-ser. Ocasionalmente o homem se dependura na murada de sua inconsciência e se perde em lembranças. Quando pode ilusiona sua estada em albergues solitários, mas quando se encontra aprisionado, vendo sua autoimagem refletida no espelho, grita, berra, esperneia até voltar à realidade e o tempo desencadeia uma tempestade de memórias e lembranças passadas nos braços do silêncio. É como querer pegar uma galinha e ela escapar-lhe das mãos para precipitar-se atônita no espaço reduzido de sua consciência. Diz-se que um elefante ocupa muito espaço. Imaginemos que a amplitude, latitude e longitude desse imenso animal, cujo corpo se nos oferece como modelo, caiba dentro do nosso pensamento… Interessante é pensar que transformamos toda ideia, fatos ou coisas de dimensões desproporcionais em minúsculas partículas de conhecimentos e as projetamos em nós como último recurso.

O louco não concebe o seu tamanho até ver a proporção da sua sombra, e o homem não percebe a sua grandeza até observar o Universo, depois sai em busca de esclarecimento e torna-se pequeno, na medida em que vai descobrindo suas raízes. E, via de regra, volta ao passado. Como eu, que busco insandecidamente o futuro dos meus passos e me perco nos jardins das delícias em cada esquina que tombo para além da minha imaginação.

Sinto o coração palpitar e meus dedos saltitantes e caritativos buscando consolos nos corpos estremecidos das doces virgens que nunca se orgasmaram, nem chegaram ao ápice de um gozo estremecido de desejos lascivos e concupiscentes.

Mas eu te busco nas retortas espaciais, nos desencontros da vida e anseio estar com você, uma nesga de um átimo de tempo. Só me resta esse vazio eqüidistante de nossos corpos que se tocam, se falam, mas se afastam de um comprometimento eterno. E os nossos olhos se encontram… Busco uma réstia de luz que nos ilumine em nossos encontros furtivos e, de repente, saio porta adentro na busca de beijos carnívoros que me façam viver o onipresente de sua vida.

Mas doce é caminhar entre espinhos, sabendo que se está usando sapatos de segurança, com biqueiras de aço e tudo mais. É tão fácil ser sutil quando se está com a razão. Difícil é encarar a vida quando se está com a corda no pescoço. E, geralmente, os heróis morrem covardemente em busca de ideais sutis, enquanto que os covardes se glorificam por serem perseverantes e coesos com suas realidades.

Às vezes eu me pergunto se o peixe-voador sabe que está cometendo suicídio quando esvoaça feito gaivota por cima d´água. Serão os heróis tão covardes a ponto de cederem suas vidas por causas justas? Ou serão, “os covardes”, os heróis por perpetuarem sua estirpe e organizarem o time em campo, não entregando a bola ao inimigo que, apesar de inimigo, é também herói e covarde?

Por que o herói nunca dorme direito? Insônia? Indigestão? Será porque vive à espera de fazer um ato bravio e entrar para a história? O homem quando defende seus direitos, sua casa, seu trabalho, seus filhos, seus vícios, suas amantes, seu direito de defecar em paz, seu ir e vir, também é um herói; mesmo quando, às vezes, ele peca por desejar a mulher do próximo. E já não se praticam mais atos de heroísmo como antigamente!

E, mesmo nos tempos da vovó, bravura era passar por baixo de uma figueira à meia-noite, ou dar uma facada numa bananeira à mesma hora, ou então cruzar o cemitério e ir ao cruzeiro em altas horas. E o que mais…?

E o covarde, tão deselegante, maltrapilho, chafurdado na lama, escorraçado pela plebe ignara, vandalizado pela sociedade é um incompreendido. Mísero mortal que não se descartou da vida por uma causa nobre e justa, mas até quando uma causa é nobre e justa, a ponto de se oferecer em sacrifício? E a justiça divina? Que o Senhor, na sua infinita bondade, se apiede de nossas oblações, de nossos medos e dos temores latentes em todos nós. E o sonho não finda com o abrir dos olhos. Cada encontro é como uma quimera repleta de ejaculações precoces debaixo do tapete da sala. Cada resquício de estrela rebuscado no fundo da memória é como se sentisse prazer, volúpia da própria dor, ao entrar em êxtase. E não é masoquismo… É apenas o desejo perene de sentir o desejo desejado até o orgasmo existencial. E seria até loucura venial se nós não sonhássemos que temos tudo.

Terrível é permanecer na escuridão apascentando ovelhas, enquanto o lobo mau palita os dentes com os ossos da novilha desgarrada. Mas quando me vejo só, na solidão da noite, meus pensamentos se entredevoram; pecam-se, tornam-se lascivos, pecaminosos e oniscientes da minha carnalidade, então, carnívoros, se alimentam das minhas ideias, minhas memórias, minhas ilusões, minhas quimeras, minhas letargias, minhas agonias, minhas glórias, minhas fracassadas vitórias, minhas lembranças…

E o que seria do sonho se não fosse o apagar das luzes que refletem a nossa imagem no picadeiro indecente da vida? Ilusões à parte, é difícil sonhar quando se está endividado. É difícil sonhar quando se está amando. É difícil sonhar quando se está à beira do abismo. E, por mais que queiramos sentir a sensação de uma noite bem dormida, nunca conseguimos nos lembrar do que sonhamos. E a sorte passa de raspão com números mirabolantes e depois somente o esquecimento.

Amar é participar do sonho. Quisera sonhar com você, transformando o seu corpo num quasar e me envolvendo de energia e gozos deleitosos.

Sonhar com você, beijar seus lábios voluptuosos e carentes, até descobrir quantas cáries você tem na boca. Mas isso não importa. Transbordando de desejos, de anseios, de vontade louca de comer, sugaria até os farelos de pão, ou os resquícios de comida dos seus lábios e idolatraria seus cabelos por ocultarem petiscos apetitosos para as horas insossas.

 Perdoe, meu amor, mas a fome é tanta que misturo poesia com feijão. E você, minha vida, é o prato principal.

Anoitece. E quando a noite vem chegando devagar, com esses horários desencontrados de verão, eu me perco falando futilidades e amenidades, pois é necessário falar besteiras, baboseiras e jogar conversa fora para se apurar o raciocínio crítico. O homem é um louco, um doido-varrido quando não faz uma doidice ou alivia a sua tensão em algo tão absurdo que até Deus põe em dúvida a sua criação. Se ele não explodir de alguma maneira, se ele não fizer alguma coisa que o desvie um pouco da sua rotina, ele enlouquece. É necessária uma reflexão… E eu me sinto num mato sem cachorro.

A inteligência inibe os valores. A burrice adultera e menospreza os cálculos. A sensatez refuta o dom de conceber a criação. Por isso o homem se corrompe, estupra a sua consciência, violenta sua vontade e sevicia a sua razão de ser. Por quê? Por que simplesmente ele não extravasa a sua tensão num beijo, num abraço, num afago, num carinho? Mas quando o faz, beija beijando, ama amando, abraça abraçando, afaga afagando e olha olhando.

Contudo não se fazem mais homens como nos idos de antigamente, e nem antigamente se faziam homens como hoje, e nem nunca se fizeram homens nem mulheres como hoje, nem ontem nem antigamente, nem nuncamente! Comparar homens e mulheres não leva a nada; nem se chega a conclusão alguma… É puro desperdício de tempo!

Mas suave é permanecer ao seu redor, embriagado pelo seu perfume e esperar as horas passarem num lampejo.

Às vezes me pergunto:

— O que dói mais, uma facada no peito ou um coração partido?

Acredito que nem um nem outro. Ambos se cicatrizam com o tempo. A ferida se fecha em si, escondendo toda dor e mistério. E, enclausurada no silêncio, a mágoa se rende à pressão do cotidiano e se esquece no fundo da alma. E assim passam-se os dias, vão-se as noites frias, longas e impiedosas. Voam-se os meses, os sonhos se volatizam.

E os mendigos se acotovelam debaixo das pontes, esfomeados buscam nos lixos pedras de brilhantes para saciarem a sede e brigam entre si pelos restos de caviar. Soçobram esperanças. E depois, dos meios-fios da vida, mergulham desatinados sob as rodas de um carro, buscando refúgio no espírito.

— E o que dói mais?

Dói saber que não se é mais amado, dói saber que o romance acabou, dói saber que tudo não passou de um ledo engano, dói descobrir que o amor nasceu prematuro, dói revelar-se e ser o ridículo no picadeiro, dói amar um coração frio de esperanças, dói ter lembranças e sabê-las em vão.

Insondáveis são os mistérios da vida, mesmo quando não estamos nem aí para os acontecimentos. E, quando apenas pretendemos viver a nossa vida isoladamente, os desígnios do acaso nos espreitam pelos caminhos, pelas sombras, pelas brechas do tempo/espaço do pensamento e, num arroubo de surpresa, nos projetam contra os fatos. Então, passamos a entender que viver é participar da vida, revoltados ou não; tudo o que supomos ser vital para a gente, não passa de meros detalhes para o nosso destino e, assim, o real e o imaginário passam a conviver com o nosso cotidiano, sem estabelecer regras nem normas. O real deixa de ser real quando se torna imaginário, e o imaginário deixa de ser imaginário quando se torna real. Mas quando o real é imaginário e o imaginário é real? Como viver em realidade, quando tudo o que pensamos é imaginário?

O que determina o imaginário quanto realidade, e o que predispõe o real quanto imaginário? Linhas tênues e ilusórias superam todo o conceito e paralelas, em pontos de fuga, fazem-nos crer que, apesar de tudo, os sentimentos são reais e imaginários…

São reais quando afetam nossas vidas, transformando nossas emoções em cascalhos paranóicos e fragmentos psicóticos na busca do ego ferido? Ou são imaginários quando descobrimos que perdemos a noção do tempo tentando desvendar o que nunca passou de mero acaso?

Mas estar entre o real e o imaginário, prefiro ficar pensando que tudo acontece por uma razão de ser. O imaginário antecipa o real, e o real…  bem… O real é uma faca de dois gumes, totalmente enferrujada, que se enterra diariamente nos sonhos de todos nós. Contudo, real é o sentimento que antecede o delírio de amor. Nada mais triste do que imaginarmos a realidade das emoções passadas e buscarmos, no imaginário, situações acomodadas e felizes para cada momento, mesmo quando não os foram. E buscar respostas em memórias e lembranças passadas lanceta o coração de maneira fria e ríspida.

O imaginário é conceber sonhos felizes e romances espetaculares, e o real é acordar e não ter nada o que comer e estar completamente sozinho, sem um amor, sem uma paixão, sem uma vida a dois, sem ninguém…

Mas nem tudo na vida é um mar de rosas… A lama também é monazítica e faz com que o homem ou nós, reles mortais, possamos ter compaixão de nós mesmos e dos outros… E me pergunto sempre:

— As nossas relações, os nossos encontros são reais ou imaginários? É imaginário quando apenas permanecem no campo dos encontros ou são reais quando se transformam em emoções?

Há duas respostas: um sentimento é imaginário e o outro é real. O que inicia o relacionamento tem a realidade objetiva em mente e o que recebe aceita o imaginário como princípio, até se tornarem cristalinas as intenções ora equivocadas. As emoções se fundamentalizam em conceitos nos quais apenas o sentir transforma-se em algo real. Logo, o amor não é coisa tangível, é imaginário; mas que podemos fazer acontecer no real quando menos se espera. O que posso dizer? É o verdadeiro milagre da vida. E concluímos que a essência do amor está realmente no imaginário e nos fundamentos do real.

O gostar, o apaixonar-se, o amar… São partes de uma equação ambígua assim como o odiar e o detestar. Se pararmos para pensar, tudo em nossa vida faz parte de um verdadeiro complô divino. O Senhor fez o homem, deu-lhe o imaginário e disse:

— Vá e faça! Até aí ele (o homem) continuou pastando. Ir para onde? Fazer o quê? Quando? Por quê? Como?

Acho que, depois deste questionamento constrangedor, o homem foi largado no mundo para descobrir sozinho de onde veio, para onde vai, como irá para tal lugar, como irá chegar lá e por que está indo para não sei onde e terminando os seus dias em lugar nenhum…

Fico pensando se devo chorar ou cair na gargalhada amanhã. O fato é:

— Até quando podemos resistir ao amor e ao ódio? Até quanto podemos suportar os sentimentos e as emoções? Somos fortes o bastante para aguentarmos pacificamente as tragédias da vida? Possuímos amor o suficiente para nos apaixonarmos num desprendimento altruístico? Podemos dizer que somos pessoas de bem, que não somos egoístas, que rezamos para o próximo, todos os dias, que oramos, que confessamos, que damos esmolas, que fazemos caridade, que amamos todo mundo, que estamos sempre felizes, que não fazemos mal aos animais, que não fazemos uma porção de coisas…

— Nós podemos acreditar quando dizemos isso tudo do fundo do coração?

— Mas será realmente verdade? Entre ficar olhando para cada um, prefiro contar estrelas…

Mas aí me questiono.

Aquela estrela que estou olhando, está lá em cima mesmo, ou é apenas a sua luz? E o real e o imaginário me fustigam numa comoção enlouquecedora, cheia de imaginação real. Afinal, eu me pergunto:

— Quando sou real e quando sou imaginário? O quanto sou real e o quanto sou imaginário? No real há uma determinação do espaço/tempo. Toda a natureza, todos os seres do mais ínfimo ao maior e mais poderoso da Terra, tem seus dias contados a partir do nascimento. Tudo termina num lapso de tempo, tudo se esvai como as gotas de orvalho, tudo perece as folhas de outono, tudo se extingue de forma abrupta e inconseqüente e, tudo num abrir e fechar de olhos se transforma em nada. Volta à estaca zero!

E a vida gira ao redor do que é real e imaginário.

No imaginário tudo transcende à catarse das emoções do real. O sonho finito se torna imortal e o pensamento sobrepuja os sentimentos mais pueris. Num abrir e fechar de olhos as ilusões se eternizam na mente em busca de socorro e se esfacelam contra as seqüelas do passado. Viver o imaginário é buscar sempre alternativas de sobrevivências nas reentrâncias da paixão do que é real.

— Em que mundo, em que Universo eu vivo?

Quando olho para o céu e observo as estrelas, imagino que você também deve olhar para elas. Mas será que os seus pensamentos compactuam com os meus? Será que ao olhar aquela imensidão você pensa em mim? Nos momentos em que passamos imaginando outros mundos, outros planetas…

É bem difícil… Difícil é pensar em mim. Difícil é se lembrar de mim! Será que ainda se lembra que existo? Muito pouco provável… Provavelmente não sou nem lembrança… Quiçá uma poeira cósmica.

Se cada estrela que brilha no firmamento é uma réstia de esperança em cada coração, todas as vezes em que olho para aquele céu estrelado, vejo que nem tudo está perdido… Cada vez mais percebo que ainda existem pessoas que acreditam na possibilidade do milagre…

Céus! Em que mundo, em que Universo eu vivo?

*****

Vortlan estava impaciente. Se os maharnoides dominassem aquele planeta com certeza fundiriam suas mentes com tantas interrogações, antes de aniquilarem por completo o sistema. Se aquela entidade que lhe passava todas aquelas emoções era realmente um habitante daquele mundo, existiam dúvidas e incertezas terríveis dentro dela…

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