Prólogo

“Procurar e aprender, não passa de recordar”

Platão

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O planeta Altÿon fica na 68ª zona dimensional, perto da 5ª dobra cíclica da Constelação de Azthyiram na Galáxia de Andryöen, a oeste do quadrante Y. Os altÿonianos pertencem a uma raça, com profundas raízes místicas e religiosas. Vivem acima e abaixo de uma crosta metálica de cor dourada e lisa, que envolve todo o seu mundo. A parte externa adquire aspectos cromáticos, quando a luz da estrela Cannophus atravessa o horizonte, e a impressão que se tem à distância é de uma imensa bola reluzente, espalhando raios de energias pelo cosmos. Outrora, uma grande camada de massa, matéria sólida e outros elementos compostos e ferruginosos envolviam por completo todo o planeta, numa extensão de quase 200 km de profundidade; mas, aos poucos, sob o efeito de um fenômeno gravitacional acontecido na 3ª Dobra Cíclica e do empuxe de um sol desconhecido, essa camada foi se deteriorando, levada pelas violentas tempestades de areia… E, assim, os ventos das monções periódicas foram aos poucos remodelando as paisagens e regiões inteiras. O povo de Altÿon foi obrigado a procurar por lugares mais seguros para morar e sobreviver às longas e mortais tempestades; e partiram numa fuga desesperada para as profundezas do planeta.

Quando as perfuratrizes, com suas brocas de Cristalion, esbarraram com aquela parede metálica e se estilhaçaram em milhares de fragmentos foi uma loucura generalizada. Nem os raios de Solidiuny, nem os feixes cartóginos de energia Trylium conseguiram causar nenhum dano àquela barreira intransponível. Num rastreamento prospectivo daquela camada, descobriram grandes crateras ocultas a pouca distância e, dali em diante, grande parte do povo, passou a viver no interior do planeta, abaixo da crosta.

Atualmente vivem entre uma conturbada e violenta batalha contra os maharnoides e o temor de ir ao encontro de seus deuses em pecado; por isso carregam, em seus bornais, símbolos sagrados de tempos remotos, na busca da proteção divina, pois acreditam que para cada estado da alma exista uma entidade que, com o seu poder e volubilidade, lhes ofereçam guarida e proteção. Os altÿonianos são seres humanoides, bípedes, de pele muito fina e alva, possuem cabeças grandes e orelhas pequenas, muito desproporcionais aos seus corpos franzinos. Usam uma espécie de óculos com visor cromático infravermelho, cujas hastes são fixadas para o interior do canal auditivo, e vêem através dele, numa simbiose de som e cor, que se fundem bioquimicamente, criando uma visão bastante aguçada e térmica dos objetos.

Dividem-se em duas classes: aqueles que praticam a arte da guerra até as últimas consequências e que vivem em sofisticadas construções em forma de agulha, soldadas no exterior do planeta, como se não lhes restasse nenhuma perspectiva futura, a não ser morrer heroicamente num campo de batalha; e os que convergem para um paradoxo filosófico, isolados nas profundezas do mundo, buscando no sentido da vida a razão de suas existências. Procuram numa rota paralela, um objetivo mais sagrado: encontrar no Universo seres evoluídos com os quais possam partilhar suas experiências sensoriais e extracorporeas, e conhecer os anseios, desejos, medos e sentimentos de outras civilizações e, assim, possibilitar-lhes enxergarem caminhos e descobertas infinitas. Faziam essa prospecção pelo cosmos por meio de ondas telepáticas.

Tudo corria muito bem, até se defrontarem com os maharnoides. Em princípio foi apenas um contato arredio, como se ambas as partes tivessem medindo forças. Depois, quando tentaram uma aproximação do modo usual, os maharnoides ergueram uma poderosa barreira de energia psíquica desconhecida, mas com áreas fracas como um labirinto. Os altÿonianos foram penetrando por aqueles caminhos, se aprofundando ingenuamente por cada atalho, e descobriram tardiamente, que na medida em que se aprofundavam mais para o interior daquela barreira, iam ficando enfraquecidos. Os que pressentiram a armadilha recuaram a tempo, mas sofreram seqüelas mentais muito sérias e as consequências foram desastrosas devido à grande perda dos sábios e dos cientistas mestres. Uma grande onda de revolta cobriu o planeta Altÿon e as classes que viviam se digladiando internamente juntaram forças para combater o inimigo comum.

*****

Os maharnoides são seres com estrutura bioluminescentes que se alimentam da mais pura energia cósmica. Possuem as mais variadas formas, mas, a mais conhecida é a que apresenta simetria irradiada. Quando viajam pelo espaço sideral, são protegidos por carapaças simétricas, como enormes caravelas, que acomodam em seu interior milhões de criaturas e quando chegam a algum planeta, ou sistema, essas estruturas se desfazem e cada maharnoide adquire a sua própria característica. Como seres superiores, vagam pelo universo infinito e não se fixam em nenhum mundo, dimensão ou lugar. Atravessam o Universo sem nenhum empecilho, e quando chegam a algum planeta ou constelação apropriam-se daquilo que consideram mais importante e partem, levando o conhecimento, as memórias, as lembranças…

E o que resta, geralmente, são seres transformados em autômatos e desmemoriados, que vão se aniquilando até a destruição total. Reproduzem-se misteriosamente, mas se multiplicam numa velocidade fantástica. Depois de um longo período de batalhas perdidas para os maharnoides, os altÿonianos descobriram que podiam combatê-los, revestindo seus crânios internos com um composto de substâncias minerais, como silicato de cálcio, alumínio e philione, uma resina líquida encontrada no subsolo do planeta Altÿon. E conseguiram isso através de um complexo processo de osmose, iniciado por meio de uma simbiose visual e que finalizava no indutor auditivocerebral. E durante muitos confrontos obtiveram resultados positivos e até conseguiram por um determinado tempo neutralizar a carga psíquica inimiga.

E assim, mantiveram-se agarrados à esperança de sucesso contra os maharnoides. Mas o povo de Altÿon não percebeu o que realmente acontecia; estavam completamente iludidos e equivocados com as aparentes vitórias. Chegaram a pensar que manteriam para sempre aquela proteção, ainda mais em se lidando com seres de inteligência muito superior. Mas o que realmente se percebia, e eles não queriam enxergar, era apenas um prolongamento…

Ou retardamento do final; pois os maharnoides mantinham um cerco ferrenho e intransponível sobre o planeta, sendo que a claridade refletida no solo altÿoniano era fornecida pela bioluminescência do próprio inimigo.

E então aconteceu…

Os maharnoides se dispersaram céleres para fora da órbita do planeta, como se estivessem cansados da luta, abandonando a presa, desistindo da batalha… Permitiram assim, por alguns minutos, que jorrasse, com toda a intensidade, o brilho fulgurante da estrela Cannophus, sob a superfície… E os altÿonianos viram o quanto seu mundo era bonito… Sentiam, tardiamente, uma pontada de arrependimento por abandonarem Altÿon em troca de uma aventura… Mas não tiveram muito tempo para ficarem se lastimando, pois logo começaram a chegar outros maharnoides, só que esses eram maiores e se agrupavam em diversos núcleos mentais, deles saíam hastes que eram cercadas por intrincadas teias geometricamente perfeitas e por elas corriam pequenas partículas de energias coloridas. E aos milhões avançaram e penetraram pela 68ª zona dimensional, contornaram a 5ª Dobra Cíclica da Constelação de Azthyiram, na Galáxia de Andriöen, e surgiram na atmosfera do planeta Altÿon, lançando centelhas elétricas por todos os lados. E cada habitante foi sendo esvaziado de suas emoções e sentimentos, sugado de suas energias e o corpo drenado de toda a essência vital… E apenas flashes de memórias foram restando de suas lembranças, até um vazio sombrio e total tomar conta… E nada mais.

*****

Os que conseguiram escapar se ocultaram nos profundos pântanos frígidos de cristais líquidos, dos mundos internos, habitados por parasitas Kylliux[1], mas sabiam também que era por pouco tempo, antes que um grupo avançado de maharnoides viesse buscá-los. Mas, enquanto tal não acontecia (e eles não entendiam o porquê) iam fugir furtivamente pelas brechas espaciais, em pequenas e ligeiras naves de assalto. O único problema dessas espaçonaves era de só cobrirem curtas distâncias. Permaneciam dentro de um perímetro seguro, entre o local de ataque e próximos do apoio estratégico: a nave mãe. Só que no momento inexistia tal apoio e se não fossem abastecidas a tempo, em algum planeta, serviriam como seus próprios túmulos! Contudo, ao se arrojarem no espaço pressentiam que os deuses lhes favoreciam, lhes indicavam um caminho muito além das estrelas e, por isso, confiantes, numa rota cega, partiam pelo hiperespaço numa velocidade hidroprossônica, através de fendas temporais e distorções dimensionais, numa fuga louca e insana. Quanto mais distantes estivessem dos maharnoides, melhores seriam suas vidas.

Aos milhares, num grande círculo intransponível, eles aguardavam pacientemente os maharnoides, interligados a alguma força ainda muito maior. E justamente o espaço deixado no meio, foi inflando feito uma bolha e, em seguida estourou silenciosamente. Do seu interior abriu-se um portal cósmico do qual saíram uma enxurrada de caravelas maharnoides. E desta vez perceberam não havia mais como escapar, nem como retroceder, pois assim que a abertura chegou ao máximo, os maharnoides já estavam bloqueando os sinais, interferindo na energia das maquinas, impedindo qualquer fuga. Sabiam o que estavam fazendo. Poderiam ter eliminado todos durante o ataque fulminante ao planeta, mas não! Foram deixando espaços para que pudessem fugir. Os maharnoides agiam o tempo todo como se existisse um planejamento bem organizado, já programado.

*****

Vortlan era um típico guerreiro altÿoniano que havia passado por todos os processos osmóticos com o indutor e aprendeu a utilizar, em separado, cada substância em porcentagens que variavam de mínima à máxima. Aplicava o philione puro diretamente no cérebro, o que lhe dava uma visão mais ampliada e uma agilidade de pensamento mais veloz. Mas isso tudo era somente para conhecer um pouco mais sobre os segredos mentais do seu povo e se resguardava, neutralizando qualquer sensação de medo. Como guerreiro não tinha essa percepção, mas depois que começou a desvendar os mistérios dos seus antepassados, descobriu outros sentimentos ocultos e muito estranhos à sua formação militar. Ter medo era “baixar a guarda” para o inimigo e ele não pretendia se entregar tão depressa.

Depois de analisar toda a situação tinha de agir instintivamente, raciocínio ágil, lógica infalível e rapidez nas soluções. O seu plano era ir se afastando sorrateiramente, se isolando do grupo prisioneiro, até ousar uma fuga. E, sem muito pensar, acionou os motores em força total, chegando até o limite máximo e numa arremetida louca e suicida, sumiu no horizonte abrindo um tempestivo túnel fractal eletromagnético.

Mas descobriu tardiamente o engodo.

Era uma armadilha! Ao pular para a outra dimensão, um grupo de maharnoides já o esperava. Apavorou-se! Estavam em todos os lugares! Mas não freou, acionou os motores auxiliares com o resto de combustível e projetou-se em velocidade irreconhecível para qualquer lugar à sua frente, penetrando novamente em outro túnel fractal. Através dos seus óculos, percebia apenas traços bioluminescentes maharnoides passando e que se grudavam às suas vestes, procurando um caminho para invadir a sua mente. Com o pouco que lhe sobrava de lucidez, viu que os instrumentos esquadrinhavam um pequeno sistema solar mais adiante. Direcionou a nave para aquele quadrante, no instante em que o indutor auditivo cerebral recebia um impacto forte de luz e adquiria uma tonalidade diferente. Pressentiu a sua mente ir sendo dominada, percebeu ainda, num átimo de segundo, quando a nave no automático, não obedecendo ao plano de órbita para adentrar na atmosfera do planeta, se chocou num baque forte e violento contra o seu campo gravitacional. Depois, um brilho intenso cegou-o momentaneamente e, em seguida, um calor sufocante tomou conta da cabina…

Com a explosão do impacto, sentiu a sua essência corpórea se desprender do corpo num solavanco, de forma dolorida e bastante violenta… Percebeu também que estar sendo arremessado como um projétil contra a superfície do estranho mundo azulado. Sua mente estava clara e lúcida, e viu quando minúsculos pontos foram se transformando em imensas cadeias de montanhas, vales verdejantes, massa líquida azulada, depois os contornos marrons e acinzentados de grandes construções filetadas. E foi entrando em pânico quando o solo se aproximou… Aguardou silenciosamente o momento de ser absorvido… Viu um imenso prédio branco com luzes ofuscantes se interpondo no seu caminho… E de repente, tudo se tornou escuro.

*****

Vortlan estava confuso. Que lugar era aquele? Que escuridão era aquela? Jamais havia sentido aquela espécie de sentimento. Uma presença constante ali o incomodava. Se fosse um maharnoide já teria sido identificado pela sua estranha luz, aliás, já estaria morto… Mas não estava. Continuava vivo. Sua mente permanecia intacta. Uma sensação esquisita brotava bem dentro do seu peito.

Onde estaria o maharnoide? Teria mudado a forma?

Novamente uma presença estranha se fazia presente, notava a sua aproximação, mas estava oculta. Emoções muito fortes eram projetadas em sua mente… Anseios, desejos… Uma voz surgia… Depois imagens como num relâmpago se misturavam numa profusão e se fundiam… A cada instante via-se arremetido num vazio angustiante e uma energia muito densa vindo ao seu encontro, acolhendo-o, seguido de um silêncio tortuoso e calmo. Sim, uma espécie de corpo lhe servia de amparo, mas precisava ir além do corpo. Precisava saber onde estava. Uma imagem de um lugar desconhecido surgiu. Uma paisagem muito confusa, uma estrada passou em grande velocidade… E novamente a escuridão. Estava prisioneiro dentro de alguma coisa viva. Captava as memórias e impressões de algum ser alienígena… Mas o que aconteceu? Onde estava? Ocupava um espaço… Pressentia algo muito forte se aproximando… Não pôde se mover quando aqueles sentimentos avassaladores, aquelas emoções intensas se apropriaram da sua vontade…

Então compreendeu que, mesmo contra a sua vontade, não poderia evitar que aquela força agisse a bel-prazer. Entretanto devia ficar preparado, pois havia algo desconhecido pronto para explodir como uma estrela… Chegava ao limite de sua expansão, tentava revelar ao cosmos o seu esplendor… Contudo, encontrava-se prisioneiro da sua própria luz fulgurante. Necessitava desabafar… Começava a identificar as energias que fluíam ao seu redor. Não eram de maharnoides. Apesar de toda a confusão, algo profundamente emocional se aproximava… Não eram desconhecidas aquelas impressões. Ele, um guerreiro acostumado a sondar o Universo em busca de experiências sutis, de outros povos, se sentia completamente subjugado… Sim! Enclausurado dentro de um corpo que não lhe correspondia, no entanto, mostrava-lhe seus mais ínfimos desejos e que eram sensações, memórias, lembranças, anseios, revoltas, choros, risos e outras emoções completamente alheias para si. E só podia ficar a escutar, sentir e sonhar… Diante aquele modo dele agir um tanto quanto exótico.

Vortlan estava atônito.

Tentava vasculhar com a mente algo que pudesse identificar… Por um instante uma imensa claridade ofuscou-lhe as vistas… Conseguiu vislumbrar além do corpo o que se passava; seres estranhos com máscaras brancas se agitando ao seu redor, mas tudo no mais profundo silêncio. Sentia-se como se estivesse aprisionado dentro de uma cápsula transparente. De vez em quando voltava a escuridão completa e ele forçava a mente… E novamente pôde ver quando pegaram aquele corpo que lhe servia de hospedeiro (?), e colocaram-no numa espécie de leito e depois o encheram de tubos… Espetaram agulhas e puseram bandagens apertadas pelos braços e pernas.

Seus olhos fecharam-se de vez. Novamente aquela presença alienígena se fazia presente, mas não se mostrava. Percebia uma emoção muito forte o invadindo. Sensações que não estava acostumado a sentir, anseios… Desejos… Lembranças obscuras… Memórias de fatos passados… Estava mais que confuso! Uma voz principiou a falar num idioma muito excêntrico e que foi dominando todo o seu ser. Depois outras em tons mais suaves, chamavam-no por outro nome que não conhecia.

Imagens passavam num relâmpago se misturando, numa profusão, e se fundiam com as suas… Lembrava-se claramente do seu mundo, do seu planeta, dos seus amigos, mas começava a misturar tudo… Sentia uma ligeira incerteza se era realmente quem pensava ser… Em poucos minutos muitas dúvidas surgiram. As memórias que captava, as emoções que sentia, os sentimentos que se apropriavam da sua vontade, não lhe pertenciam… Ou?

*****

Não! Alguma coisa estava errada. Sabia perfeitamente quem era, ou o que fora. Possuía suas próprias lembranças guardadas, contudo, algo mais acontecia. Devia deixar de ser intransigente e proceder como lhe passaram os ensinamentos. Havia aprendido que o Universo é pura energia que se encontra em todos os corpos cósmicos. E que tudo se funde num só elemento divino. Ao se transmutar nessa energia devia abandonar os vícios da mente e deixar-se levar para se unir às grandes forças do Universo, que se fundiam numa interação cósmica Una. Ergueu uma barreira mental, como fazia para se defender dos maharnoides, mas notou que instantes depois a barreira era absorvida por uma força muito mais poderosa. Novamente, ergueu outra mais forte, buscando neutralizar qualquer pseudofonte de energia mista. E se repetiu tudo de novo. A absorção da barreira e, agora, o pressentimento da aproximação de um ser. Ser? Seus olhos se abriram numa fenda mínima, mas ele pôde ver um ser de olhos lacrimejantes vir se aproximando. Num insight se lembrou de Lúhlü. A sua face suave, meiga, mas amuada; seus olhos lacrimejantes, o calor das suas mãos acariciando o seu rosto num último adeus… E depois a escuridão e depois o silêncio profundo, como se tudo houvesse acabado, terminado, concluído.

O que estava acontecendo?

Não podia ficar ali para sempre sem saber o que se passava. Então, relaxou, abandonou todos os seus temores e deixou acontecer… Vir o que haveria de vir… E foi sendo literalmente sorvido; absorvido por uma energia muito viva, ativa e extasiante. Contudo, sofredora, cheia de receios, de medos, de sentimentos frágeis, mas com uma personalidade marcante. Uma luz assim como uma voz surgiu na sua mente…

“— Sou Halcen, tenho 38 anos, estou nesse estado vegetativo há muito tempo. Durante todos esses anos, tenho orado aos céus, suplicado por alguma coisa que acabasse com este meu sofrimento… Porém, não queria morrer sem antes confessar os meus anseios, meus desejos, minhas revoltas… minhas lembranças que ficaram para trás e que vão se perder com o tempo…”

Vortlan percebia que era incumbido de uma missão impossível. Não se sentia confortável diante àquela situação! Não podia se responsabilizar daquela maneira por aquele ente alienígena que tinha um tempo/espaço muito sutil. Morrer com apenas 38 anos! A sua vida não durava nem um segundo diante às possibilidades infinitas do Universo. Um período muito curto. Isso o deixava completamente indefeso e perdido… O que existiria dentro de um alienígena daquela espécie? Precisava ter muita precaução a esse respeito. Todo cuidado era pouco diante uma criatura que nem imaginava como seria. Também podia ser uma armadilha.

Duvidava disso.

A sua situação era muito delicada. Quando os maharnoides o descobrissem estaria em apuros, seria completamente eliminado! E ainda mais, a sua mente não fora trabalhada e preparada para receber tais tarefas. O seu pensamento lógico era incompatível com as razões sentimentais; sempre impulsionado pela praticidade dos cálculos estratégicos de guerra… Não queria assumir algo que estava muito além do seu conhecimento e que não podia suportar. Lutar contra os maharnoides era circunstancial; absorver a mente de outro ser, impunemente, era uma invasão amoral. Era transcender a liberdade de pensamento… Mas, por outro lado, a sua condição de um intruso dentro daquele corpo também não lhe permitia muitas escolhas, nem recusas… Se quisesse manter-se oculto, precisava ser solidário e o hospedeiro buscava a sua ajuda… A ironia era ser o hospedeiro do seu próprio hóspede!

Cedeu à realidade dos fatos e abaixou a sua guarda. Então sentiu a fusão de suas mentes no plano cósmico: o humano alienígena começava a lhe repassar seus valores, suas emoções, seus lamentos, seus desejos mais íntimos, seus sentimentos mais profundos para o outro alienígena se dispor deles como melhor lhe conviessem e cumprisse assim a sua missão…

Uma enxurrada de imagens surgia na sua mente, como se as estivesse vendo nas telas de um Visiocrons. Toda a vida daquela entidade era mostrada ali, como se estivesse sendo escrita com tinta Cyryl e gravadas em sua mente alienígena da maneira mais rude que podia existir… Páginas e mais páginas surgiam numa leitura silenciosa e num idioma de caracteres difícil de entender, mas que eram interpretados de forma bem sintomática.

 


[1] Kylliux — Seres visitantes que nascem, crescem e morrem sem saírem do mesmo lugar. Vivem em imensas colônias, que em determinado tempo, se entredevoram, num canibalismo insano e do resto renasce uma nova geração, que mais tarde  procederá da mesma maneira.

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